terça-feira, 22 de setembro de 2009

Crítica - 7


Não há que abusar dos adjectivos, bem o sei, da mesma forma que não se deveria abusar da comida ou do álcool. Todavia, o mundo está cheio de obesos e dipsómanos. Verdad? Ora, não é exactamente a esta adição gramatical que me refreia. Quando os adjectivos me dominarem, farei uma cura de desintoxicação e poderei esquecer-me para sempre deles. Entretanto, vou flutuando sem esforço de maior, rodeado de uma campina aprazível, que faz lembrar a Toscânia no seu melhor. Entre um mergulho e outro, comento mentalmente a sessão cinematográfica da noite anterior. Depois de um opíparo jantar nas cercanias. Trata-de de Slumdog Millionaire (Quem quer ser Milionário?), a oscarizada película inglesa passada na Índia. Paul Eluard, o poeta francês amante da simplicidade, o mesmo que soube descrever numa única estrofe toda a ambiguidade do mau estudante, esse que "diz não com a cabeça, mas sim com o coração" (Jacques Prevert), escreveu também algures que "há decerto outros mundos, mas estão neste". É uma frase tão concisa e clara que, há alguns anos, foi utilizada na publicidade televisiva, onde aparecia uma piscina privada ainda mais convidativa do que aquela em que me encontrava. É que a câmara lenta tem um poder subjugador, hipnótico: embeleza até os tarantinianos tiros na cabeça com abundantes salpicos de sangue e miolos. É claro que tinha ficado bastante impressionado com o filme do concursante hindu; talvez porque conhecia muito bem dois dos mais recorrentes métodos de tortura argentinos: a imersão sem escafandro e os choques eléctricos. Neste caso, além da cegueira com uma colher de pau, novo para mim, e o mergulho na merda humana, toda uma metáfora, a película de Danny Boyle ensina-nos como se pode sair de toda essa desgraça. Precisamente com a ajuda de um golpe de sorte que nos faça milionários e a companhia de um amor "que te cuide, que te cuide". Love is a magnificent thing, já se sabe, sabêmo-lo todos, e graças a ele, ao maravilhoso, angélico amor, um documental de ritmo acelerado sobre a miséria actual nas grandes urbes pode converter-se num conto de fadas com Happy End, ao estilo Bollywood. Suponho que para pagar de alguma forma tanto aprazível, apiscinado prazer burguês, decidi ver no dia seguinte outro blockbuster de forte conteúdo social: Gomorra. Não vou por-me a criticar agora a redundância de certas cenas, nem a confusão que produz um casting de actores secundários, supostamente não profissionais com rostos familiares, nem sempre diferenciáveis. O filme é certamente digno e não oferece possíveis finais felizes: os corruptos sê-lo-ão ainda mais, os que pretendam um percurso autónomo despertarão convertidos em cadáveres crivados de balas. Os resíduos tóxicos cobrirão o mundo, temperando com cianeto os nossos melões, e uma Grande Camorra Globalizada acabará por dirigir cada segundo das nossas vidas, através da ambição, da necessidade, da ignorância e, sobretudo, do medo. Ainda que a minha já manifesta adição aos adjectivos possa levar a mais equívocos, queria ainda referir outro filme maior, The Cooler (Má sorte, 2003), com Maria Bello, Alec Baldwin y William H. Macy como cabeças de cartaz. Azar, dinheiro, máfias e finalmente amor; novamente um grande amor que tudo vai mudar. Las Vegas é um lugar iluminado em excesso, onde se passeiam um punhado de pessoas com demasiada ambição e pouco discernimento. À margem, tentando não cair ruidosamente do tapete, encontram-se os perdedores de sempre. Interpretados com algum brilhantismo por Macy e Bello, estas duas personagens quase normais merecem melhor sorte. De tal forma que o guionista e realizador, Wayne Kramer, um bom tipo, criativo, audaz e inteligente, decide então presenteá-las, permitindo-lhes escapar do círculo infernal onde se haviam encontrado. Pela minha parte, depois de farejar, graças ao cinema, estes outros mundos não tão distantes, decidi que o lugar onde estou, o meu pequeno universo quotidiano, não se parece demasiado com esses infernos. De sorte que ainda não me atrevo ainda a chamá-lo de paraíso. Mesmo não tendo, para já, relação alguma com o conhecido tecno-purgatório de Huxley.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Crítica - 6


O que posso dizer da película "argentina" de Coppola, apresentada no último Festival de Cannes? Que é praticamente horrível? Que desde há muito não via algo tão mau num écran de cinema? Ambas seriam apreciações demasiado superficiais, sínteses algo simplificadoras das desagradáveis sensações que deixaram no meu corpo, no meu cérebro, na minha sensibilidade e - mesmo desejando que não houvesse chegado até aí, posso receá-lo - no meu já suficientemente açoitado inconsciente, as duas horas de sacrificada ingestão deste pudim indigesto chamado Tetro. Estava ansioso por ver o filme, reconheço. Tanto mais que criado por um realizador que admiro desde há muito e que agora decide ter como cenário um país tão estonteante e complexo. Mas vamos já já ao que interessa. Para que não pensem que sou assim tão negativo, tentarei salvar alguma coisa deste titânico naufrágio. Aqui vai pois uma pequena lista de salvados:
1) O jovem actor de nome impronunciável: Alden Ehrenreich. Quase um clone de Leonardo DiCaprio, conserva uma ambígua e terna ingenuidade infantil, actua com elegante naturalidade, apesar do estranho enxame de desengonçados que o rodeiam durante todo a longa, inacabável, metragem do filme.
2) A fotografia a preto e branco: clássica nos seus claros/escuros, sempre expressiva, por momentos magnífica.
3) A música, tão bela como redundante, misturando sons reconhecíveis do tango e o folclore argentino. Em muitos momentos é utilizada para destacar situações supérfluas que, supostamente, deveriam dotar o filme desse carácter porteño que Coppola encontra na rádio Colifata - é-lhe dedicada uma longa sequência quase documental dentro do filme- ou no mate amargo que a fotogénica e sempre algo distante Maribel Verdú oferece ao seu jovem cunhado.
Haveria que resgatar algo mais? Talvez o rostro impenetrável, cinematograficamente imprescindível, de Vincent Gallo. É melhor esquecer a patética aparição de Carmen Maura, num arremedo exasperante, óculos com armação de massa branca pelo meio, da escritora Victoria Ocampo. Como teria sido este personagem interpretado por Javier Bardem? Cego, talvez?
Mais perguntas: o que pretendeu Coppola com este, segundo ele, seu filme mais pessoal? Fartar-se para sempre? Visitar essa Argentina decadente, acelerada, superficial, orgiástica, soberbamente felliniana? Tudo faz crer que nunca recuperou o guião que lhe furtaram da sua casa do bairro de Palermo. E, com a produção já em marcha, teve que inventar este montão de absurdos enredos familiares no mais puro estilo Soap, à medida que ia filmando. É triste observar como o criador de O padrinho e One from the heart, o homem bigger than life, que arriscou várias vezes a sua fortuna pessoal para fazer o cinema que desejava fazer, se vende agora por um simples prato de lentilhas ao falso luxo de Swarovski, rapina nos coutos privados de outros realizadores - o último Leonardo Favio, Wong Kar Wai e Almodóvar entre os mais notáveis - e passeia-se com um olhar irónico e superficial pelas vastas pampas argentinas. Pouco mais que um cenário onde ele e a sua filha se fazem retratar para poderem vender-nos, também, as icónicas maletas de monsieur Louis Vuitton.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Programação Setembro - Dezembro

9 de Setembro, às 21.30, no Pequeno Auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG)

1. Alinha, de Manuel Francisco Guerra, aluno do curso de comunicação audiovisual da Escola Secundária Artística António Arroio. Documentário vencedor do “PrimeirOlhar”, secção competitiva dos Encontros de Viana, recebendo o prémio Oficial.
Sinopse: Múltiplas histórias convergem para um ponto. Cinco jovens do ensino secundário, cujas vidas balançam entre o desespero e a ridicularização, apresentam-nos o seu dia-a-dia. Retalhos de situações aparentemente banais revelam os seus quotidianos. O vestir de uma camisola que suscita uma tensão, um copo que vai vertendo gotas de leite, um passeio solitário no meio de uma sociedade frenética, uma espera inquietante, são tudo situações que tornam mais claras as evidências procuradas.
Ficha: Argumento, Realização e Produção: Manuel Guerra. Câmara: João Francisco. Assistente de realização e storyboard: Tiago Caramez. Supervisão: Prof. Carlos Gomes. 15’.

2. O Medo, do mesmo autor. 19’
Sinopse: Um dia, a normalidade depressiva de Clara é quebrada. Mulher presa? Trancada numa “jaula”, recebe um coelho branco que a faz questionar e entrar noutra dimensão. Sente medo. As formas desconstroem-se. Surge o passado aterrador onde as dúvidas e a violência subsistem. Qual o sentido? Percorrer e evadir-se.

3. Entrega (2008), de João Coimbra de Oliveira, recebeu o prémio “PrimeirOlhar Cineclubes”.
Sinopse: documentário que retrata a chamada “Lisboa Escondida”, um desafio lançado num workshop organizado pelo Austin Summer Institute em Lisboa. Este vídeo mostra a rotina matinal dos padeiros de Lisboa, que amassam e cozem o pão numa cave. De madrugada, o Sr. António prepara a sua bicicleta e entrega esse pão pelas ruas adormecidas da cidade. Entrega é uma reflexão sobre resistência, liberdade e tempo.
Ficha: Realização e produção: João Coimbra de Oliveira. Fotografia e som: Ricardo Raminhos. Montagem e produção: Vitória Dias. Música do genérico: Gaiteiros de Lisboa. 8 min.

4. Se tivesse um peixe aí, de Inês Ponte e João Coimbra de Oliveira
Sinopse: Seu Lorde parte, de canoa. Atravessa para a ilha. Do outro lado lança a rede. (A ver se apanha peixe.) 6’10’’

Biografia dos Realizadores: nasceram ambos em Lisboa, nos finais dos anos 70. Formado em antropologia, interessam-se pela vertente do documentário etnográfico, realizando pequenos exercícios visuais.

21 de Outubro, às 21.30, no Pequeno Auditório do TMG

Belarmino de Fernando Lopes (Portugal, 1964, 72’, M/12)
Sinopse: O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.
Primeira longa-metragem de Fernando Lopes, com o apuro jazzístico de Manuel Jorge Veloso e a brilhante fotografia de Augusto Cabrita, este é um dos filmes-chave do cinema Novo português. Com Belarmino Fragoso, Albano Martins, Tony Alonso

18 de Novembro, às 21.30, no Pequeno Auditório do TMG

Rasganço de Raquel Freire (Portugal, 2001, 100’, M/12)
Sinopse: Coimbra, a mais complexa de todas as personagens, conta a história:
Eu não sou só uma cidade. Sou uma estufa. Uma reserva natural para estudantes, onde eles vivem em plena liberdade. Sou uma espécie de doce, entre a adolescência e a idade adulta. Mas só para os que puderam estudar. Os melhores. Eles sabem que são uma elite. Uma manhã de Janeiro chegou um homem. Apaixonou-se por mim e pelas minhas mulheres. Tolo, não percebeu que EU não sou para quem quer, mas para quem pode; e que o amor não abre as minhas velhas portas.
Com Ricardo Aibéo, Ana Brandão, Ana Teresa Carvalhosa, Luís Miguel Cintra, Carlos Geria, Ana Cristina Mesquita, Isabel Ruth

2 de Dezembro, às 21.30, no Pequeno Auditório do TMG

Singularidades De Uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira (Portugal, 2009, 63’, M/12)
Sinopse: Macário (Ricardo Trêpa) ocupa o lugar de contabilista do armazém do tio Francisco (Diogo Dória), em Lisboa. É o seu primeiro emprego. Do outro lado da rua habita Luísa Vilaça (Catarina Wallenstein), a rapariga loura por quem logo se apaixona perdidamente. Quer casar com ela. De imediato. Acabou de a conhecer, mas não pode esperar. O tio discorda, despede-o e expulsa-o de casa. Macário vai contando estas atribulações amorosas a uma senhora desconhecida, numa viajem de comboio a caminho do Algarve. Continuando a história, parte, mas leva a certeza de que não desistirá da amada – o que pode um tio contra o mais genuíno amor? Segue para Cabo Verde, onde consegue enriquecer. Quando volta, tem já a aprovação de Francisco para o casamento. Vai, finalmente, desposar Luísa Vilaça. Que mais poderia desejar? É só então que descobre a “singularidade” do carácter da noiva. Uma extraordinária adaptação do conto original de Eça de Queiroz.
Com Catarina Wallenstein, Leonor Silveira, Rogério Samora, Ricardo Trêpa.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Crítica - 5

O Porteiro da Noite, de Liliana Cavani. Com Dirk Bogarde e Charlotte Rampling. Itália, 1974

Liliana Cavani é conhecida por ser uma cineasta "maldita". Ou seja, alheia aos cânones do politicamente correcto e aos estereótipos do gosto hegemónico. De entre a sua obra singular, só conhecia até agora "Para lá do bem e do mal". Como o título sugere, trata-se da recriação de uma parte significativa da vida de Nietzsche. Nomeadamente, a sua passagem pelo norte de Itália, o mal de vivre cultivado pela aristocracia do espírito no último quartel do séc. XIX. E, claro está, o triangulo amoroso onde pontuou a inevitável Lou Salomé (e Rée).
"O Porteiro da Noite" (1974), é um filme perturbador, subversivo. Formalmente, trata-se de uma tragédia, ainda que alheia à compaixão e ao lirismo. Que desvela um erotismo brutal e intensamente poético. Dirk Bogarde é Max Aldorfer, um antigo oficial das SS e médico num campo de concentração. Após a guerra, escapando à justiça dos vencedores, trabalha como receptionista num hotel de Viena. Local onde reencontra, enquanto hóspede, uma das suas antigas "cobaias" e amante, Lucia Atherton, uma judia americana (Charlote Rampling). Max integra um grupo clandestino, composto por ex-nazis. O qual se encarrega de velar pela tranquilidade dos seus membros, mesmo que isso implique "apagar" algum potencial delator, ou testemunha incómoda. A ligação sentimental entre ambos refaz-se, como se de uma maldição se tratasse. Mas não sem alguma resistência. E não se trata, como já li, de uma ilustração do célebre "síndrome de Estocolmo", da atracção entre o carrasco e a vítima. Todavia, percebe-se porque é que o filme foi tão ostracizado durante tanto tempo. Os vencedores da guerra e a narrativa por si criada acerca da barbárie nazi não podiam permitir que um antigo torcionário "padecesse" de uma recôndita humanidade. Nem muito menos que uma vítima da Endlösung (solução final) retomasse uma ligação amorosa com um "monstro", algo que nem o terror nem a subjugação explicam. Onde os sinais da opressão, agora consentida e ambivalente, desenham as regras de uma obsessão passional viscontiana, demasiado intensa para sobreviver e demasiado verdadeira para ser tolerada. Onde um erotismo desregrado se alimenta da vigilância que sobre ele é exercida. Onde só esse transporte radical torna possível uma IGUALDADE ABSOLUTA E DIÁFANA entre o ex-torturador e a sua ex-vítima, agora irmanados na vida e na morte. Por outro lado, há um traço nesta obra que deve ter perturbado ainda mais os zelotas: a eliminação de qualquer intuito moralizador, propagandístico, quando são mostradas as sequências do período da guerra. Insistindo-se, ao invés, numa hiper-estetização do nazismo, despojado do seu programa, do "Lebensraum", e apresentado como puro cenário. Onde a arte ilude a subjugação que a inscreve e o corpo se descobre como o lugar preciso onde a dominação se exerce. Um cenário para a ditadura do espírito, a depuração da moral burguesa, o retorno a um gosto e uma pureza primitivas, que anunciam a verdadeira e redentora modernidade. Neste ponto, ficaram particularmente célebres duas sequências: a primeira, a do ballet ("nitzscheano") ao som da "Dança das Fúrias" (retirado de "Orfeo ed Euridice", de G.W. Gluck). Executado por um dançarino, perante um grupo de oficiais nazis. A segunda, uma cuidada coreografia de cabaret, com pinceladas de Kokoschka. A cantora/striper é a própria Lucia. No final, descobre-se depositária do mesmo troféu que a bíblica Salomé, aos pés do seu amo e senhor.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cinco anos

Assinalando o seu 5º aniversário, o Cineclube da Guarda irá realizar, na próxima sexta-feira, dia 5 de Junho, um encontro de confraternização, nas instalações do Quintal Medroso. O início será pelas 21 30 H. Pouco depois, pelas 22 00 H, será projectado o filme "Pamplinas Maquinista", de Buster Keaton (versão original), cuja ficha poderá ser encontrada no post anterior. A exibição acontecerá no auditório aberto, junto à muralha.

NOTA: devido às condições meteorológicas, o filme deverá ser projectado no interior do auditório, à mesma hora.


Doc


Divulgamos un encontros que decerto prometem. ou seja, uma semana em cheio: Filmes, debates, workshops e um naipe de convidados à altura. Ver aqui o programa e inscrições.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Pamplinas maquinista


de The General, de Buster Keaton e Clyde Bruckman

Argumento: Clyde Bruckman e Buster Keaton Produção: Buster Keaton e Joseph M. Schenck Fotografia: Bert Haines e Devereaux Jennings Montagem: Buster Keaton e Sherman Kell Som: Joe Hisaishi Actores: Buster Keaton, Marion Mack, Charles Henry Smith, Richard Allen, Glen Cavender, Jim Farley, Frederick Vroom, Joe Keaton, Mike Donlin, Tom Naw Cópia: DVD, Preto e Branco Duração: 94 minutos Origem: USA Classifificação: M/6

Durante a Guerra Civil Americana, espiões unionistas roubam uma locomotiva com o objectivo de destruir as linhas de comunicações inimigas, mas têm de enfrentar o condutor da locomotiva que a tenta recuperar.
O mais famoso filme do actor cómico Buster Keaton tem por base o livro “Daring and Suffering: a History of the Great Railway Adventure”, publicado em 1863 e reeditado anos mais tarde sob o novo título “The Great Locomotive Chase”. O seu autor, William Pittinger foi um sobrevivente do assalto a uma locomotiva, de nome The General, realizado por um grupo de soldados unionistas, no estado norte-americano da Geórgia. O livro é precisamente o relato desse assalto, que tinha por objectivo destruir as linhas de comunicação (linhas férreas, postes de telegrafo e pontes) para enfraquecer o inimigo. Caso o plano tivesse sucedido, a guerra civil americana teria acabado mais cedo, mas o assalto acabou em desastre quando a tripulação da locomotiva perseguiu os assaltantes e os interceptou: nove foram presos e os restantes acabaram por ser enforcados.

Buster Keaton achou a história brilhante e decidiu adaptá-la ao grande ecrã (apenas transformando o herói em sulista) fazendo de Pamplinas Maquinista, um dos seus filmes mais pessoais. Keaton nasceu no meio de uma família de comediantes e cedo começou a fazer parte das actuações do grupo famíliar. Quando este se desfez, Keaton teve a oportunidade de trabalhar com o comediante Fatty Arbucke num dos seus filmes e ai nasceu o fascínio de Keaton pelo cinema. A relação entre os comediantes floresceu e os dois realizaram cerca de 15 comédias de duas bobines entre 1917 e 1920. Posteriormente, Keaton teve a oportunidade de gerir o seu próprio estúdio e ai realizou diversas comédias de curta e longa duração, entre elas Pamplinas Maquinista.

A rodagem do filme decorreu no estado de Oregon, onde Keaton construiu o grandioso cenário (incluindo a ponte para a cena final, na altura, a mais cara alguma vez filmada), tendo sido necessário contratar 500 membros da Guarda Nacional, várias locomotivas de grande porte e transportar, de Los Angeles, 18 vagões de equipamento. O filme “traduz-se” numa longa perseguição e grande parte das cenas foram filmadas com uma câmara montada num carro que acompanhava a acção numa linha paralela. O filme vive essencialmente das peripécias de Keaton, que se tornam ainda mais impressionantes pelo facto do actor as interpretar ele mesmo, tendo, ao longo da sua carreira, dispensado sempre a utilização de duplos. Ao contrário de Chaplin, cujo humor é mais intimista, Keaton sempre teve um fascínio pela grandiosidade e Pamplinas Maquinista é um dos melhores exemplos disso: a utilização de grandes locomotivas como cenário da acção, os grandes planos sobre a paisagem e mesmo a recusa de Keaton em utilizar close-ups sobre si, são elementos típicos dos seus filmes.

O filme estreou nos Estados Unidos, a 5 de Fevereiro de 1927 (em Portugal apenas chegou às salas de cinema 38 anos mais tarde) e foi um fracasso de bilheteira, prejudicando a carreira de Buster Keaton, que não mais voltou aos seus tempos áureos: o actor nunca mais gozou da mesma liberdade criativa e após dois ou três filmes como actor principal, teve de se contentar com papéis secundários e papéis em filmes de baixo orçamento, o que lhe trouxe problemas na sua vida pessoal, como o divórcio e o alcoolismo. Mas o tempo veio a fazer-lhe justiça e Pamplinas Maquinista é, hoje, muitas vezes citado nas listas dos melhores filmes da história do cinema. A sua mais valia é o humor físico de Keaton, o ritmo impressionante da acção (estamos a falar de um filme mudo de 1927) e uma história bem estruturada e interessante.

in http://www.chambel.net

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O cinema está vivo

(clicar para ampliar)

No passado fim de semana, tive a felicidade de poder assistir ao filme " Cada um o seu cinema" (2007), uma tradução discutível de "Chacun son Cinema". A obra nasceu a propósito dos 60 anos do festival de Cannes. Trata-se de um registo colectivo, composto por 33 curtíssimas metragens de 3 minutos, criadas por outros tantos realizadores, cujos nomes poderão ser vistos ampliando o cartaz em cima. O tema comum é o próprio cinema, as salas, a relação entre a arte e o espectador. A forma de abordagem é diversa, abarcando desde o cómico até ao sarcástico, passando pelo dramático. Um dos momentos fulgurantes da obra acontece no segmento "Três Minutos", de Theo Angelopoulos. Precisamente quando Jeanne Moreau lê "para" Marcelo Mastroiani o mesmo poema que quarenta anos antes o personagem do actor italiano tinha lido à sua mulher, na sequência final de "A Noite", de Antonioni. Um filme que, por mero acaso, vi há pouquíssimo tempo. Um momento mágico, realmente comovente. É assim o cinema.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A palavra

Em representação do Cineclube, estive em Viana do Castelo, nos "Olhares Frontais", encontros de cinema e vídeo, organizados pelo Cineclube "Ao Norte". O programa revelou-se interessante, com exibição de vários documentários no ciclo "Outros Olhares", o concurso "PrimeirOlhar", uma apresentação do Esodoc, de duas escolas de cinema, uma italiana e outra de Hong Kong, vários debates e workshops. A encerrar, decorreu uma homenagem a Manoel de Oliveira. Antes, a projecção do documentário "O Pintor e a Cidade", o seu primeiro filme a cores. Se bem que, para o realizador, não haja diferença de género entre o documentário e a ficção. Durante a conversa com a assistência que se seguiu, ficaram retidas na memória algumas das suas palavras. Nomeadamente, o comentário que fez do último filme de Dryer, "Gertrud". Precisamente porque este o imaginou inicialmente a cores. O realizador dinamarquês, como é sabido, foi sempre uma das suas referências básicas. Oportunidade, no documentário, para descobrir o Porto em todo o seu esplendor. Com o pretexto da paleta do artista, claro, mas com a destilação do olhar de quem conhece a cidade melhor do que ninguém. No final, do próprio realizador ouvi a melhor definição, ainda que provavelmente involuntária, da sua obra. Foi quando comparou o teatro e o cinema, afirmando que ambos são praticamente iguais. A nuance está nas palavras do teatro serem substituídas pelas imagens no cinema.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A paixão de uma vida


Hoje é dia de luto para o cinema em Portugal. Acaba de nos deixar um dos maiores divulgadores e cultores da 7ª arte: João Bénard da Costa. Segundo pode ler-se no site do ICA, JBC esteve "ligado à Cinemateca Portuguesa desde 1980, onde assumiu o cargo de Presidente a partir de 1991, João Bénard da Costa faleceu hoje, aos 74 anos. Numa vida dedicada ao cinema, começou como dirigente cineclubista enquanto ocupava também o cargo de presidente da Juventude Universitária Católica. Foi um dos fundadores da revista O Tempo e o Modo, dirigiu o Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidia à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal. Escreveu crónicas no Expresso, passou pelo Diário de Notícias e, em 1988, no semanário O Independente assinou “Os filmes da minha vida”. Publicou várias obras, entre as quais monografias sobre Alfred Hitchcock ou John Ford. Foi homenageado com o prémio Pessoa em 2001 e recebeu de Mário Soares a Ordem do Infante D. Henrique. Internacionalmente, foi reconhecido em França que o instituiu como «Officier des Arts et des Lettres». Pelo trabalho à frente da Cinemateca, João Bénard da Costa foi condecorado em Setembro de 2008 pelo Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural."