segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Programação Setembro - Dezembro

9 de Setembro, às 21.30, no Pequeno Auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG)

1. Alinha, de Manuel Francisco Guerra, aluno do curso de comunicação audiovisual da Escola Secundária Artística António Arroio. Documentário vencedor do “PrimeirOlhar”, secção competitiva dos Encontros de Viana, recebendo o prémio Oficial.
Sinopse: Múltiplas histórias convergem para um ponto. Cinco jovens do ensino secundário, cujas vidas balançam entre o desespero e a ridicularização, apresentam-nos o seu dia-a-dia. Retalhos de situações aparentemente banais revelam os seus quotidianos. O vestir de uma camisola que suscita uma tensão, um copo que vai vertendo gotas de leite, um passeio solitário no meio de uma sociedade frenética, uma espera inquietante, são tudo situações que tornam mais claras as evidências procuradas.
Ficha: Argumento, Realização e Produção: Manuel Guerra. Câmara: João Francisco. Assistente de realização e storyboard: Tiago Caramez. Supervisão: Prof. Carlos Gomes. 15’.

2. O Medo, do mesmo autor. 19’
Sinopse: Um dia, a normalidade depressiva de Clara é quebrada. Mulher presa? Trancada numa “jaula”, recebe um coelho branco que a faz questionar e entrar noutra dimensão. Sente medo. As formas desconstroem-se. Surge o passado aterrador onde as dúvidas e a violência subsistem. Qual o sentido? Percorrer e evadir-se.

3. Entrega (2008), de João Coimbra de Oliveira, recebeu o prémio “PrimeirOlhar Cineclubes”.
Sinopse: documentário que retrata a chamada “Lisboa Escondida”, um desafio lançado num workshop organizado pelo Austin Summer Institute em Lisboa. Este vídeo mostra a rotina matinal dos padeiros de Lisboa, que amassam e cozem o pão numa cave. De madrugada, o Sr. António prepara a sua bicicleta e entrega esse pão pelas ruas adormecidas da cidade. Entrega é uma reflexão sobre resistência, liberdade e tempo.
Ficha: Realização e produção: João Coimbra de Oliveira. Fotografia e som: Ricardo Raminhos. Montagem e produção: Vitória Dias. Música do genérico: Gaiteiros de Lisboa. 8 min.

4. Se tivesse um peixe aí, de Inês Ponte e João Coimbra de Oliveira
Sinopse: Seu Lorde parte, de canoa. Atravessa para a ilha. Do outro lado lança a rede. (A ver se apanha peixe.) 6’10’’

Biografia dos Realizadores: nasceram ambos em Lisboa, nos finais dos anos 70. Formado em antropologia, interessam-se pela vertente do documentário etnográfico, realizando pequenos exercícios visuais.

21 de Outubro, às 21.30, no Pequeno Auditório do TMG

Belarmino de Fernando Lopes (Portugal, 1964, 72’, M/12)
Sinopse: O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.
Primeira longa-metragem de Fernando Lopes, com o apuro jazzístico de Manuel Jorge Veloso e a brilhante fotografia de Augusto Cabrita, este é um dos filmes-chave do cinema Novo português. Com Belarmino Fragoso, Albano Martins, Tony Alonso

18 de Novembro, às 21.30, no Pequeno Auditório do TMG

Rasganço de Raquel Freire (Portugal, 2001, 100’, M/12)
Sinopse: Coimbra, a mais complexa de todas as personagens, conta a história:
Eu não sou só uma cidade. Sou uma estufa. Uma reserva natural para estudantes, onde eles vivem em plena liberdade. Sou uma espécie de doce, entre a adolescência e a idade adulta. Mas só para os que puderam estudar. Os melhores. Eles sabem que são uma elite. Uma manhã de Janeiro chegou um homem. Apaixonou-se por mim e pelas minhas mulheres. Tolo, não percebeu que EU não sou para quem quer, mas para quem pode; e que o amor não abre as minhas velhas portas.
Com Ricardo Aibéo, Ana Brandão, Ana Teresa Carvalhosa, Luís Miguel Cintra, Carlos Geria, Ana Cristina Mesquita, Isabel Ruth

2 de Dezembro, às 21.30, no Pequeno Auditório do TMG

Singularidades De Uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira (Portugal, 2009, 63’, M/12)
Sinopse: Macário (Ricardo Trêpa) ocupa o lugar de contabilista do armazém do tio Francisco (Diogo Dória), em Lisboa. É o seu primeiro emprego. Do outro lado da rua habita Luísa Vilaça (Catarina Wallenstein), a rapariga loura por quem logo se apaixona perdidamente. Quer casar com ela. De imediato. Acabou de a conhecer, mas não pode esperar. O tio discorda, despede-o e expulsa-o de casa. Macário vai contando estas atribulações amorosas a uma senhora desconhecida, numa viajem de comboio a caminho do Algarve. Continuando a história, parte, mas leva a certeza de que não desistirá da amada – o que pode um tio contra o mais genuíno amor? Segue para Cabo Verde, onde consegue enriquecer. Quando volta, tem já a aprovação de Francisco para o casamento. Vai, finalmente, desposar Luísa Vilaça. Que mais poderia desejar? É só então que descobre a “singularidade” do carácter da noiva. Uma extraordinária adaptação do conto original de Eça de Queiroz.
Com Catarina Wallenstein, Leonor Silveira, Rogério Samora, Ricardo Trêpa.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Crítica - 5

O Porteiro da Noite, de Liliana Cavani. Com Dirk Bogarde e Charlotte Rampling. Itália, 1974

Liliana Cavani é conhecida por ser uma cineasta "maldita". Ou seja, alheia aos cânones do politicamente correcto e aos estereótipos do gosto hegemónico. De entre a sua obra singular, só conhecia até agora "Para lá do bem e do mal". Como o título sugere, trata-se da recriação de uma parte significativa da vida de Nietzsche. Nomeadamente, a sua passagem pelo norte de Itália, o mal de vivre cultivado pela aristocracia do espírito no último quartel do séc. XIX. E, claro está, o triangulo amoroso onde pontuou a inevitável Lou Salomé (e Rée).
"O Porteiro da Noite" (1974), é um filme perturbador, subversivo. Formalmente, trata-se de uma tragédia, ainda que alheia à compaixão e ao lirismo. Que desvela um erotismo brutal e intensamente poético. Dirk Bogarde é Max Aldorfer, um antigo oficial das SS e médico num campo de concentração. Após a guerra, escapando à justiça dos vencedores, trabalha como receptionista num hotel de Viena. Local onde reencontra, enquanto hóspede, uma das suas antigas "cobaias" e amante, Lucia Atherton, uma judia americana (Charlote Rampling). Max integra um grupo clandestino, composto por ex-nazis. O qual se encarrega de velar pela tranquilidade dos seus membros, mesmo que isso implique "apagar" algum potencial delator, ou testemunha incómoda. A ligação sentimental entre ambos refaz-se, como se de uma maldição se tratasse. Mas não sem alguma resistência. E não se trata, como já li, de uma ilustração do célebre "síndrome de Estocolmo", da atracção entre o carrasco e a vítima. Todavia, percebe-se porque é que o filme foi tão ostracizado durante tanto tempo. Os vencedores da guerra e a narrativa por si criada acerca da barbárie nazi não podiam permitir que um antigo torcionário "padecesse" de uma recôndita humanidade. Nem muito menos que uma vítima da Endlösung (solução final) retomasse uma ligação amorosa com um "monstro", algo que nem o terror nem a subjugação explicam. Onde os sinais da opressão, agora consentida e ambivalente, desenham as regras de uma obsessão passional viscontiana, demasiado intensa para sobreviver e demasiado verdadeira para ser tolerada. Onde um erotismo desregrado se alimenta da vigilância que sobre ele é exercida. Onde só esse transporte radical torna possível uma IGUALDADE ABSOLUTA E DIÁFANA entre o ex-torturador e a sua ex-vítima, agora irmanados na vida e na morte. Por outro lado, há um traço nesta obra que deve ter perturbado ainda mais os zelotas: a eliminação de qualquer intuito moralizador, propagandístico, quando são mostradas as sequências do período da guerra. Insistindo-se, ao invés, numa hiper-estetização do nazismo, despojado do seu programa, do "Lebensraum", e apresentado como puro cenário. Onde a arte ilude a subjugação que a inscreve e o corpo se descobre como o lugar preciso onde a dominação se exerce. Um cenário para a ditadura do espírito, a depuração da moral burguesa, o retorno a um gosto e uma pureza primitivas, que anunciam a verdadeira e redentora modernidade. Neste ponto, ficaram particularmente célebres duas sequências: a primeira, a do ballet ("nitzscheano") ao som da "Dança das Fúrias" (retirado de "Orfeo ed Euridice", de G.W. Gluck). Executado por um dançarino, perante um grupo de oficiais nazis. A segunda, uma cuidada coreografia de cabaret, com pinceladas de Kokoschka. A cantora/striper é a própria Lucia. No final, descobre-se depositária do mesmo troféu que a bíblica Salomé, aos pés do seu amo e senhor.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cinco anos

Assinalando o seu 5º aniversário, o Cineclube da Guarda irá realizar, na próxima sexta-feira, dia 5 de Junho, um encontro de confraternização, nas instalações do Quintal Medroso. O início será pelas 21 30 H. Pouco depois, pelas 22 00 H, será projectado o filme "Pamplinas Maquinista", de Buster Keaton (versão original), cuja ficha poderá ser encontrada no post anterior. A exibição acontecerá no auditório aberto, junto à muralha.

NOTA: devido às condições meteorológicas, o filme deverá ser projectado no interior do auditório, à mesma hora.


Doc


Divulgamos un encontros que decerto prometem. ou seja, uma semana em cheio: Filmes, debates, workshops e um naipe de convidados à altura. Ver aqui o programa e inscrições.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Pamplinas maquinista


de The General, de Buster Keaton e Clyde Bruckman

Argumento: Clyde Bruckman e Buster Keaton Produção: Buster Keaton e Joseph M. Schenck Fotografia: Bert Haines e Devereaux Jennings Montagem: Buster Keaton e Sherman Kell Som: Joe Hisaishi Actores: Buster Keaton, Marion Mack, Charles Henry Smith, Richard Allen, Glen Cavender, Jim Farley, Frederick Vroom, Joe Keaton, Mike Donlin, Tom Naw Cópia: DVD, Preto e Branco Duração: 94 minutos Origem: USA Classifificação: M/6

Durante a Guerra Civil Americana, espiões unionistas roubam uma locomotiva com o objectivo de destruir as linhas de comunicações inimigas, mas têm de enfrentar o condutor da locomotiva que a tenta recuperar.
O mais famoso filme do actor cómico Buster Keaton tem por base o livro “Daring and Suffering: a History of the Great Railway Adventure”, publicado em 1863 e reeditado anos mais tarde sob o novo título “The Great Locomotive Chase”. O seu autor, William Pittinger foi um sobrevivente do assalto a uma locomotiva, de nome The General, realizado por um grupo de soldados unionistas, no estado norte-americano da Geórgia. O livro é precisamente o relato desse assalto, que tinha por objectivo destruir as linhas de comunicação (linhas férreas, postes de telegrafo e pontes) para enfraquecer o inimigo. Caso o plano tivesse sucedido, a guerra civil americana teria acabado mais cedo, mas o assalto acabou em desastre quando a tripulação da locomotiva perseguiu os assaltantes e os interceptou: nove foram presos e os restantes acabaram por ser enforcados.

Buster Keaton achou a história brilhante e decidiu adaptá-la ao grande ecrã (apenas transformando o herói em sulista) fazendo de Pamplinas Maquinista, um dos seus filmes mais pessoais. Keaton nasceu no meio de uma família de comediantes e cedo começou a fazer parte das actuações do grupo famíliar. Quando este se desfez, Keaton teve a oportunidade de trabalhar com o comediante Fatty Arbucke num dos seus filmes e ai nasceu o fascínio de Keaton pelo cinema. A relação entre os comediantes floresceu e os dois realizaram cerca de 15 comédias de duas bobines entre 1917 e 1920. Posteriormente, Keaton teve a oportunidade de gerir o seu próprio estúdio e ai realizou diversas comédias de curta e longa duração, entre elas Pamplinas Maquinista.

A rodagem do filme decorreu no estado de Oregon, onde Keaton construiu o grandioso cenário (incluindo a ponte para a cena final, na altura, a mais cara alguma vez filmada), tendo sido necessário contratar 500 membros da Guarda Nacional, várias locomotivas de grande porte e transportar, de Los Angeles, 18 vagões de equipamento. O filme “traduz-se” numa longa perseguição e grande parte das cenas foram filmadas com uma câmara montada num carro que acompanhava a acção numa linha paralela. O filme vive essencialmente das peripécias de Keaton, que se tornam ainda mais impressionantes pelo facto do actor as interpretar ele mesmo, tendo, ao longo da sua carreira, dispensado sempre a utilização de duplos. Ao contrário de Chaplin, cujo humor é mais intimista, Keaton sempre teve um fascínio pela grandiosidade e Pamplinas Maquinista é um dos melhores exemplos disso: a utilização de grandes locomotivas como cenário da acção, os grandes planos sobre a paisagem e mesmo a recusa de Keaton em utilizar close-ups sobre si, são elementos típicos dos seus filmes.

O filme estreou nos Estados Unidos, a 5 de Fevereiro de 1927 (em Portugal apenas chegou às salas de cinema 38 anos mais tarde) e foi um fracasso de bilheteira, prejudicando a carreira de Buster Keaton, que não mais voltou aos seus tempos áureos: o actor nunca mais gozou da mesma liberdade criativa e após dois ou três filmes como actor principal, teve de se contentar com papéis secundários e papéis em filmes de baixo orçamento, o que lhe trouxe problemas na sua vida pessoal, como o divórcio e o alcoolismo. Mas o tempo veio a fazer-lhe justiça e Pamplinas Maquinista é, hoje, muitas vezes citado nas listas dos melhores filmes da história do cinema. A sua mais valia é o humor físico de Keaton, o ritmo impressionante da acção (estamos a falar de um filme mudo de 1927) e uma história bem estruturada e interessante.

in http://www.chambel.net

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O cinema está vivo

(clicar para ampliar)

No passado fim de semana, tive a felicidade de poder assistir ao filme " Cada um o seu cinema" (2007), uma tradução discutível de "Chacun son Cinema". A obra nasceu a propósito dos 60 anos do festival de Cannes. Trata-se de um registo colectivo, composto por 33 curtíssimas metragens de 3 minutos, criadas por outros tantos realizadores, cujos nomes poderão ser vistos ampliando o cartaz em cima. O tema comum é o próprio cinema, as salas, a relação entre a arte e o espectador. A forma de abordagem é diversa, abarcando desde o cómico até ao sarcástico, passando pelo dramático. Um dos momentos fulgurantes da obra acontece no segmento "Três Minutos", de Theo Angelopoulos. Precisamente quando Jeanne Moreau lê "para" Marcelo Mastroiani o mesmo poema que quarenta anos antes o personagem do actor italiano tinha lido à sua mulher, na sequência final de "A Noite", de Antonioni. Um filme que, por mero acaso, vi há pouquíssimo tempo. Um momento mágico, realmente comovente. É assim o cinema.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A palavra

Em representação do Cineclube, estive em Viana do Castelo, nos "Olhares Frontais", encontros de cinema e vídeo, organizados pelo Cineclube "Ao Norte". O programa revelou-se interessante, com exibição de vários documentários no ciclo "Outros Olhares", o concurso "PrimeirOlhar", uma apresentação do Esodoc, de duas escolas de cinema, uma italiana e outra de Hong Kong, vários debates e workshops. A encerrar, decorreu uma homenagem a Manoel de Oliveira. Antes, a projecção do documentário "O Pintor e a Cidade", o seu primeiro filme a cores. Se bem que, para o realizador, não haja diferença de género entre o documentário e a ficção. Durante a conversa com a assistência que se seguiu, ficaram retidas na memória algumas das suas palavras. Nomeadamente, o comentário que fez do último filme de Dryer, "Gertrud". Precisamente porque este o imaginou inicialmente a cores. O realizador dinamarquês, como é sabido, foi sempre uma das suas referências básicas. Oportunidade, no documentário, para descobrir o Porto em todo o seu esplendor. Com o pretexto da paleta do artista, claro, mas com a destilação do olhar de quem conhece a cidade melhor do que ninguém. No final, do próprio realizador ouvi a melhor definição, ainda que provavelmente involuntária, da sua obra. Foi quando comparou o teatro e o cinema, afirmando que ambos são praticamente iguais. A nuance está nas palavras do teatro serem substituídas pelas imagens no cinema.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A paixão de uma vida


Hoje é dia de luto para o cinema em Portugal. Acaba de nos deixar um dos maiores divulgadores e cultores da 7ª arte: João Bénard da Costa. Segundo pode ler-se no site do ICA, JBC esteve "ligado à Cinemateca Portuguesa desde 1980, onde assumiu o cargo de Presidente a partir de 1991, João Bénard da Costa faleceu hoje, aos 74 anos. Numa vida dedicada ao cinema, começou como dirigente cineclubista enquanto ocupava também o cargo de presidente da Juventude Universitária Católica. Foi um dos fundadores da revista O Tempo e o Modo, dirigiu o Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidia à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal. Escreveu crónicas no Expresso, passou pelo Diário de Notícias e, em 1988, no semanário O Independente assinou “Os filmes da minha vida”. Publicou várias obras, entre as quais monografias sobre Alfred Hitchcock ou John Ford. Foi homenageado com o prémio Pessoa em 2001 e recebeu de Mário Soares a Ordem do Infante D. Henrique. Internacionalmente, foi reconhecido em França que o instituiu como «Officier des Arts et des Lettres». Pelo trabalho à frente da Cinemateca, João Bénard da Costa foi condecorado em Setembro de 2008 pelo Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, com a medalha de mérito cultural."

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Indie Lx 2009


Este ano, no que diz respeito ao Festival Indie Lisboa, só houve tempo para ver "Film Ist. a girl and a gun", de Gustav Deutsch. Trata-se de um registo singular, a que chamaria, à falta de melhor, uma instalação cinematográfica. Uma narrativa a que o autor preferiu chamar "drama musical". Mas que, pela intensidade e vertigem das sequências, mais parece uma operação mediúnica de reinvenção do mundo, através das imagens. O filme integra a série Film Ist, projecto a que o realizador tem dado seguimento desde 1997. Neste caso, reuniu uma quantidade impressionante de registos visuais de arquivo, nem sempre com origem no cinema, todavia confinados às quatro primeiras décadas do século XX. Os textos utilizados, de autores clássicos gregos, no caso Platão (com "O Banquete"), Safo e Hesíodo, iluminam as cinco partes em que se divide a obra. Que constitui uma operação visual deveras impressiva, onde o artifício não se nota e a força genesíaca do cinema, refeito a partir do seu vigor inicial, se mostra em toda a sua plenitude.

António Godinho, no "Boca de Incêndio"

Crítica - 4

“Minha Mãe”
Realização: Cristophe Honoré
, a partir do romance homónimo de Georges Bataille
Com Isabelle Huppert, Louis Garrel e Emma De Caunes

França, 2004, 110'

Pequeno Auditório do TMG, 4 de Março

Ciclicamente, o cinema tende a aproximar-se do seu aliado mais óbvio, a literatura. Paradoxalmente, também o mais perigoso e exigente. Sobretudo quando se trata de obras de escritores “malditos”, como Bataille. Poderosa e corajosa, esta segunda longa-metragem de Christophe Honoré, é uma boa surpresa. Bataille, com reputação de inadaptável para o cinema, ganhou vida perante os nossos olhos. O cineasta transpôs a acção do romance para os nossos dias e para as ilhas Canárias, num desses complexos turísticos de massas que florescem em Espanha: uma arquitectura cuja simples visão, inumana, assustadora, basta para desejar mergulhar no inconsciente para se perder. Desde os primeiros planos aos abanões da câmara que sobrevoa estas paisagens de betão, estamos já no centro da história. Pierre e a mãe procuram um absoluto no qual o erotismo é apenas um instrumento. Não é só uma questão de prazer, mas de abjecção, de pureza, de sede, de medo da morte. A mãe não é a santa que Pierre acredita e desde que o pai morre misteriosamente (nunca saberemos porquê, como no livro) ela vai provar-lho. É a verdade que está aqui em causa, a verdade obscura, aquela que cega. A mãe é alcoólica, vive no deboche, entrega-se sem complexos, sem limite. E decide iniciar Pierre no deboche, confiá-lo a outras mulheres que o vão conduzir a jogos cada vez mais perigosos e para os quais não está preparado. Não interessa qualificar estas cenas, porque há palavras estereotipadas que sujam as imagens, que retiram toda a força aos actos, que marginalizam de imediato quem os comete. Sexuais, sim, mas sobretudo transgressoras. E é esse o grande mérito de Honoré: ter conseguido salvaguardar o essencial de Bataille – a transgressão – adaptada para a nossa época (nomeadamente no que diz respeito à ocultação da dimensão cristã de Bataille - mas a morte de Deus não exclui a procura do absoluto). Com imagens que nos transportam para zonas ‘infilmadas’ até hoje num filme. Portanto, a questão do filme pertence muito menos a Bataille e muito mais a Honoré. Não é por acaso que o filme é conseguido sobretudo pelas liberdades que se permitiu face ao texto original. Sobretudo a localização da acção nas ilhas Canárias, destino turístico que vende uma utopia de sexo fácil e céu demasiado azul. Levar o prazer batailliano, inseparável da ideia de transgressão, para um local que é como uma caricatura de uma sociedade que já permitiu tudo, já normalizou tudo, era um grande risco. E o filme sai vitorioso deste risco. O outro risco estava relacionado com a forma de encontrar o erotismo. Poderíamos pensar que o resultado fosse fraco, recusando Honoré a composição de grandes planos explícitos. Percebemos agora que, permanecendo à distância, em plano geral, não suprimiu a carga sexual, mas expandiu-a para todo o plano. Para tanto, serviu-se de um casting tão prestigiado como heterodoxo, em que brilha na primeira linha a grande Isabelle Huppert, escoltada por um jovem actor sobredotado, Louis Garrel, uma actriz que finalmente se afirmou, Emma de Caunes, e um ícone do underground, Joana Preiss, manequim e modelo da fotógrafa Nan Goldin. É o próprio realizador quem o confirma, em entrevista concedida na altura da estreia: “Queria fazer um filme que só devesse à luz, aos actores, à música. Mas esta abordagem era ingénua e infantil. Percebi que o que podia ser interessante no meu cinema é eu ter um pé no cinema e outro na literatura.” A certa altura dois personagens fazem sexo e por trás lê-se num cartaz “Alle Infos hier” (Todas as informações aqui), mas bem que poderia ser “Alle Ninfos hier”. De facto, o espaço é mostrado de forma quase degradante – uma zona turística que fala várias línguas, onde ninguém está em casa. Onde, no limite, se parte para a auto-destruição. Mas é aí precisamente que Bataille nos quereria levar. Ao lugar onde, nas suas palavras: “O riso é mais divino, é mesmo mais indecifrável do que as lágrimas.”

António Godinho, no jornal “O Interior”, em 12 de Março de 2009